Vida

Como consegui meu primeiro emprego como programadora

16/02/2017

Mudar de país depois que você já possui uma carreira em andamento no Brasil é um desafio enorme. Você chega em um lugar novo onde ninguém conhece a faculdade onde você estudou, as empresas em que você trabalhou e a língua te coloca em desvantagem se comparado com qualquer nativo. É preciso um trabalho enorme de auto-confiança para se apresentar ao novo mercado de trabalho e isso é muito mais difícil do que parece. Os anos que você passou se dedicando a ser o profissional que é de repente parecem não servir de nada e toda sorte de pensamentos começa a passar na sua cabeça, antes mesmo de fazer a primeira entrevista de emprego.

Tenho a sorte de trabalhar em uma área muito privilegiada quando se trata de mercado de trabalho internacional. Você fala pra qualquer pessoa que é uma programadora e a resposta padrão é “então vai ser tranquilo pra você, eles contratam muito gente da sua área”. O que em partes acredito ser verdade. Eles contratam muita gente dessa área, mas não necessariamente vai ser tranquilo: ainda assim você precisa ter as qualificações necessárias e precisa conseguir se vender bem na entrevista de emprego, usando o inglês que talvez esteja enferrujado, que talvez desapareça de frente ao seu nervosismo, ou que simplesmente não seja tão bom assim a ponto de você não precisar se importar com isso.

Vou compartilhar aqui o que eu fiz para conseguir o meu primeiro emprego como programadora front-end em Ruby on Rails em uma startup em Toronto, Canadá.

Portfolio

Eu já saí do Brasil com meu portfolio preparado. Não sou uma designer, então procurei muitas referências de portfolios bacanas e fiz o meu melhor. Deixei um código limpo e um visual bacana. Quem vai te contratar possivelmente vai olhar o código do seu site, então faça dele o melhor que você puder, é o seu cartão de visitas.

Currículo

O currículo montei dando ênfase no que eu tenho de melhor: minhas experiências de emprego e minhas skills. O ideal é pesquisar bastante na internet modelos interessantes. Estamos numa área em que o currículo não precisa ser aquele tradicional preto e branco, e acho que o currículo é uma ótima forma de você mostrar como consegue ser criativo, organizado e clean.

Cover Letter

Sempre que for enviar seu currículo para alguma vaga, adicione uma cover letter junto. É uma carta onde você vai contar que está interessada na vaga, falar rapidamente o que te torna apropriada para tal emprego e deixar seus dados de contato. É algo bem formal e que pode fazer toda a diferença na primeira impressão. Existem vários modelos na internet e é fácil montar um que seja apropriado a você. Eu criei uma padrão e mudava apenas o nome das empresas, mas dependendo pode ser legal que você customize a carta e adicione detalhes que sejam mais interessantes a cada vaga. No meu caso, por estar procurando por vagas bem específicas, não senti essa necessidade pois a cover letter era super específica também.

Procura pelas vagas

Procurei por vagas em vários sites diferentes, mas a verdade é que no fim das contas são praticamente as mesmas em todos eles. O que eu mais gosto para a minha área com certeza é o Indeed, mas você pode procurar no WowJobs, Monster, Neuvoo. Reparei que muitos head-hunters entraram em contato comigo por ter visto meu perfil disponível no Monster e achei isso bem interessante. Achei o máximo eles vindo atrás de mim em vez do contrário :D.

Scam Jobs

Pois bem. Apenas 10 minutos após enviar meu currículo via Indeed, uma empresa entrou em contato comigo querendo marcar uma entrevista para a mesma semana, com horário marcado e tudo. Fiquei eufórica! Foi aí que uma amiga me alertou para a possibilidade de ser uma vaga falsa pelo fato da resposta ter vindo tão rápidamente. Eu não sabia que isso existia, fui pesquisar sobre a empresa e o site era super esquisito, não existia nenhuma informação sobre ela no Google, o nome da pessoa que me enviou o e-mail também não existia no Google nem LinkedIn, e o endereço era um pouco suspeito… Achei tudo muito estranho e achei melhor ignorar o e-mail porque fiquei realmente com medo. Fuén fuén fuén.

Oportunidade

No dia seguinte, uma das empresas para a qual havia enviado meu currículo via Indeed entrou em contato para marcarmos uma entrevista. Pesquisa devidamente feita, empresa é real, funcionários também, marquei minha entrevista para dali 4 dias.

A verdade é que eu sou uma pessoa procrastinadora. Precisava começar a me preparar do zero para uma entrevista em quatro dias. Foquei em 3 tipos de preparação: Entrevista pessoal, Programação prática, Programação teórica. Sim, aqui eles fazem perguntas práticas e teóricas na primeira entrevista. Eu nunca tinha visto isso no Brasil. Geralmente pedem um teste, um mini projeto pra ver sua capacidade. Aqui não, são perguntas na lata mesmo sobre como resolver tal problema, o que significa tal coisa e assim vai.

Entrevista Pessoal

Criei um documento com 21 perguntas que um entrevistador pode fazer, com as típicas perguntas como:

Tell me about yourself
Why should we hire you?
What are your greatest professional strengths?
What is your greatest professional achievement?

Esta lista está disponível aqui.

Programação Prática

Essa era minha maior preocupação. Meu medo era ficar tão nervosa que não conseguisse me lembrar de nada na hora e não saber fazer os exercícios que me pedissem. Me preparei estudando bem métodos super básicos de Ruby. Como brincar com strings (inverter, separar, contar, etc) e blocos principalmente. Pesquisando no Google, qualquer que seja a sua linguagem, você vai achar resultados para “job interview questions nomedalinguagem” com muitas perguntas para você ir treinando. Como a vaga era de front-end também, me preparei com questões de CSS, HTML e JS. De novo, o Google nessas horas é o seu melhor amigo. A Toptal tem uma série de links com exercícios para entrevistas que achei muito massa.

Programação Teórica

Fiquei bem aflita com essa parte também porque muitas vezes fazemos coisas que não sabemos bem o embasamento teórico. Ou já soubemos e não nos lembramos mais, ou não sabemos bem como explicar, ainda mais em inglês. De novo, use o Google a seu favor e vai ficar surpreso de como já existe bastante material sobre isso. No caso do Ruby, um maluco criou um documento com 500 questões sobre Ruby pra vocês terem uma idéia. Dei uma olhada na teoria de SQL e de CSS e HTML também (coisas como “o que é inner join, o que são pseudo elementos, para que a tag article é usada, etc)

Passei 4 dias respirando esses conteúdos me preparando para a entrevista, até que:

A entrevista

A vaga era em uma startup, o que com certeza já deixa tudo um pouco mais informal. Mas no meu caso, não era uma startup como estamos acostumados no Brasil. Nada de puffs coloridos, pessoas sorridentes, música, mesa de sinuca. Quando cheguei, vi que era cada um no seu canto, na sua mesa, trabalhando num super silêncio. Era um meio termo, então. (Conta mais sobre isso aqui)

A entrevista com o CTO e os dois programadores correu bem. Meu inglês com certeza não foi perfeito, errei muitas vezes, mas me fiz entender. Eles não pareceram se importar com isso.

Precisei só responder um rápido Tell me about yourself que respondi bem focada na parte profissional e logo passamos pra parte das perguntas. Foi massante. Foram mais de 30 perguntas abrangendo todas as áreas possíveis, com ou sem relação com a vaga. A verdade é que algumas coisas eu não soube mesmo responder, mas não me senti nem um pouco constrangida por isso. Tanto porque eu achava quase impossível alguém saber 100% delas, quanto porque eles me fizeram sentir super confortável quando dizia “sorry, I don’t know”, como se realmente fosse normal.

Durante a entrevista, dei um jeito de falar que vi que eles estavam usando o Bootstrap 2 no site deles, porque tinha visto no código deles. Mostrei que me interessei, pesquisei, fucei, fui a fundo. Não estava ali à toa. Essas coisas fazem uma diferença danada.

Uma coisa muito importante em relação a minha entrevista é que eu não menti em momento nenhum. Algumas coisas que eles me perguntaram se eu sabia fazer, eu poderia ter dito que sim, mas preferi dizer a verdade: que não tinha um domínio completo, apenas uma noção mas que até hoje tinha sido suficiente pra lidar em todos os projetos que trabalhei.

Eu sinto que isso foi bom tanto porque é bom admitir suas fraquezas, mas também porque aumentava a credibilidade do que eu falava que sabia fazer. Criou uma relação de confiança e transparência durante a entrevista.

Bem, ao fim da entrevista, o CTO me explicou os detalhes de pagamento, horários, benefícios da empresa, disse que eles iriam conversar sobre a entrevista e que se dessem continuidade ao meu processo, o próximo passo seria conversar com a presidente da empresa, mas que entrariam em contato comigo em alguns dias dando a resposta.


como eu estava me sentindo kkkkk

A minha sensação

Saí da entrevista muito aliviada. Tinha sido a primeira e eu não tinha passado vergonha. Tecnicamente tinha me saído bem, não maravilhosamente bem, mas bem, sim senhora. Meu inglês me traiu muitas vezes, mas de maneira alguma me senti mal por isso e nem senti que seria isso que me tiraria da competição. Talvez isso me colocasse em desvantagem, mas não era algo eliminatório. Naquele momento, eu me senti livre para marcar quantas outras fossem necessárias e a sensação de que era só questão de tempo para ser escolhida por alguma vaga ficou muito clara.

Next steps

Acontece que para minha grande surpresa, na noite do mesmo dia eu recebi um e-mail do CTO me chamando para ir à empresa conversar com a Presidente e o Diretor. Eu não acreditava! Foi uma vitória incrível pra mim ser chamada para a segunda fase de um processo bem na primeira entrevista que fiz! A cabeça encheu de dúvidas: será que mandam todo mundo que gostam pra conversar com a presidente e ela escolhe um? Será que mandam só o escolhido e a presidente apenas dá o aval final? A sensação de não saber o que significava aquele segundo passo gerou uma grande angústia, mas de qualquer maneira eu já estava muito grata pela oportunidade e por ter sido aprovada pela equipe técnica.

Com uma semana de antecedência até a dita conversa, recorri também ao amigo Google para perguntar como são entrevistas de emprego com presidentes de empresas. Li mais de 10 artigos sobre isso e separei mais 23 perguntas que ela poderia fazer para mim. Esta lista está disponível aqui.

Ao fazer esse processo, de repente caiu a ficha de que é tudo uma questão de ir atrás. De tentar entender, de dar o seu melhor no momento. Fiquei me perguntando quantas pessoas tinham ido atrás de tantas perguntas, tinham passado tantos dias estudando sem parar, e percebi que tenho sim um super valor e que de fato sou uma funcionária que muitas empresas querem. Auto-estima no meio desse processo todo é fundamental. E não estou brincando.

Bom, respondi a todas essas perguntas em um documento no Drive e passei os dias lendo e relendo, praticando o tempo todo. Eu não podia deixar isso escapar das minhas mãos! Já havia passado pelo mais difícil que era a aprovação do CTO em relação à minha capacidade técnica. Eu agora só precisava mostrar para a presidente da empresa que eu combinava com os valores da empresa dela e que era alguém confiável e que valia a pena me ter no time. E é aí que o meu inglês passava a ser mais importante que qualquer outra coisa…

Entrevista com a Presidente e o Diretor

A entrevista com a Presidente foi muito menos exigente do que eu imaginava. Ela começou me perguntando porque eu estava no Canadá, mas depois disso não tinha perguntas muito elaboradas na manga não. Eu fui ficando um pouco apreensiva porque às vezes surgia um silêncio meio constrangedor e eu fiquei com medo dela terminar a entrevista antes de eu conseguir demonstrar tudo o que eu tinha preparado. Foi quando comecei a falar sozinha tudo o que tinha treinado: falei o que me chamou atenção na vaga, o porque eu sentia que me daria bem naquele trabalho, porque eu achava que eu era a melhor escolha pra vaga, e porque eu tinha adorado a empresa. As feições da Presidente e do Diretor foram mudando à medida em que eu ia falando e eles estavam claramente felizes com o que eu estava falando. Quando terminei, ela disse que essa entrevista era pra ver se o candidato estava animado, se combinava com o perfil da empresa porque eles queriam alguém que estivesse realmente com vontade de se envolver com a empresa, e não pedir demissão poucos meses depois.

A entrevista terminou assim, depois disso tive mais uma conversa com o pessoal de TI e eles disseram que iam entrevistar mais uma pessoa nos próximos dias, mas que me ligavam até o fim da semana para me dar resposta.

Tensão

Então havia um outro candidato. Eu não era a única que tinha ido conversar com a Presidente. Bom, normal, mas minha cabeça parecia que ia explodir. E se essa outra pessoa fosse melhor do que eu, e se fosse canadense?, e se não fosse melhor mas tivesse um inglês mais estável? Foram dias torturantes para mim, mas a minha parte já estava feita.

O grande dia

Dois dias depois da entrevista com a Presidente, às 11am recebi um e-mail do CTO perguntando se poderia me ligar às 3pm. Sério. Por que não ligar de uma vez, não é mesmo? Fiquei muito apreensiva. Não tinha descartado a opção dele ligar para dizer que não ia rolar e dar algum tipo de feedback. Isso é a cara dos canadenses hahaha! Mas às 3pm ele me ligou e fez a oferta de salário, eu aceitei, ele me perguntou que dia quero começar e me enviou a job offer oficial por e-mail para eu retornar assinada.

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Essa foi a minha experiência como Desenvolvedora Ruby on Rails em Toronto. O processo todo do recebimento do meu Work Permit até o dia da oferta durou 22 dias.

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